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Acupuntura

Acupuntura

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Este texto foi retirado do meu livro “A Revolução da Medicina”, como um resumo da história da Acupuntura:

Uma das características mais marcantes do pensamento chinês é a ausência de divindades e mesmo de um Deus único, em toda a sua história. Estes conceitos foram substituídos pela noção do TAO, que para os chineses não é uma idéia religiosa, mas ética. O Tao não é Deus como pensam alguns, mas um sistema ou caminho que conduz à perfeita consonância e harmonia do Homem com o Céu e a Terra, aspecto tríplice do Todo criado.

A energia vital foi profundamente estudada e desenvolvida no pensamento médico chinês, através da Acupuntura. Esta ciência surgiu na China aproximadamente há 4.500 anos atrás, pois pelos escritos preservados em cascos de tartaruga chega-se à conclusão de que na era do Imperador Amarelo (2.704 a 2.100 a.C.) ela já possuía suas bases e também apresentava um certo nível de desenvolvimento técnico e teórico-prático. A formulação de dados como o princípio Yin-Yang, a teoria dos cinco elementos e os meridianos corporais já haviam sido sistematizados no Hwang Ti Nei Ching Su Wen, livro clássico desta arte de curar, escrito segundo alguns entre os anos de 2.697 e 2595 a.C. pelo então ministro Chi Po.

Para os chineses a estrutura básica do ser humano era a mesma da do universo, e ele foi incluído, como todos os fenômenos da natureza, dentro dos dois pólos opostos e complementares da mesma energia: Yin e Yang. Essa classificação engloba todos os fenômenos e estados do universo, a saber:

 

YANG YIN
Sol Lua
Dia Noite
Céu Terra
Homem Mulher
Verão Inverno
Quente Frio
Sístole Diástole
Inspiração Expiração
Alto Baixo
Ativo Passivo
Novo Velho

Correlações Yang e Yin

Esta lista pode continuar indefinidamente, representando todos os opostos através dos quais qualquer manifestação no mundo torna-se possível. Necessário se faz notar, no entanto, que a característica Yin ou Yang é sempre relativa e necessita do segundo termo para comparação. Assim, o Sol é Yang perante a Terra ou a Lua, mas é Yin se comparado com Sírius, por exemplo; do mesmo modo o Homem é Yang perante a Mulher, mas é Yin se confrontado com seu pai, superior, ou outra autoridade de importância. Note-se também que esta classificação não é cultural, mas natural; uma mulher pode ser mais Yang que um homem quando ela é mais ativa, expansiva ou intelectiva e um homem pode ser mais Yin que uma mulher quando é mais passivo, introvertido ou emotivo. De qualquer forma, um termo não existe sem o outro – eles são interdependentes: não existe o dia sem a noite, o frio sem o calor, o alto sem o baixo, e assim por diante.

A acupuntura sustenta que o equilíbrio ou desequilíbrio destas energias se traduz como saúde ou doença, respectivamente, e daí advém o seu processo terapêutico que consiste em restaurar a harmonia entre os elementos através do estímulo ou sedação das faltas ou excessos em questão.

Isto significa que a acupuntura é essencialmente energética em suas bases, e esta energia chama-se Ki!  Outra classificação energética desta ciência é a dos Cinco Elementos denominados Madeira, Fogo, Terra, Ar e Água, nomes estes simbólicos e representativos dos elementos da natureza, mas cuja natureza essencial é energética. É importante perceber que estes elementos não são materiais, mas energéticos; esta correlação de fatores é simbólica e de difícil explanação neste pequeno esboço. Para perceber-se a dificuldade, observe-se o seguinte quadro de correlações:

 

Elemento Estação Clima Cor Órgão Víscera Emoção
Madeira Primavera Vento Verde Fígado Vesícula Raiva
Fogo Verão Calor Vermelho Coração Int. Delgado Alegria
Terra Meia estação Úmido Amarelo Baço/Pâncreas Estômago Pensamento
Metal Outono Seco Branco Pulmão Intestino Grosso Preocupação
Água Inverno Frio Preto Rins Bexiga Medo

Correlações da Acupuntura

Estes conceitos têm uma correlação filosófica e uma comprovação empírica, que já foram relatados há mais de 2.600 anos no livro do imperador amarelo.

A Teoria dos Meridianos diz que há no corpo humano doze meridianos ordinários, oito extrameridianos, quinze meridianos conexos, doze tendinosos e doze superficiais, por onde passam os 1.500 pontos específicos.

Teoricamente estes meridianos são “canais” de circulação de quatro fatores trófico-fisiológicos do corpo, que são: 1. Ki (energia), 2. Hsue (Sangue), 3. Ying (Nutrição), 4. Wei (Defesa).

A energia Ki divide-se em seis tipos: Tai-Yin (Yin Maior), Jue-Yin (Yin de Transferência), Shao-Yin (Yin Menor), Tai-Yang (Yang Maior), Shao-Yang (Yang Menor) e Yang-Ming (combinação de Yang), que multiplicada por dois (membros superiores e inferiores), resulta nos doze meridianos principais.

Segundo os chineses, a saúde é o resultado do fluxo contínuo e livre da energia Ki através dos meridianos, nos quais encontram-se minúsculos pontos que reúnem e distribuem a força vital ao longo do corpo. Estes pontos possuem resistência elétrica mais baixa que o restante da pele e podem ser localizados por um tobiscópio, confirmando o mapeamento milenar dos médicos chineses. A cura se processa através do estímulo ou sedação dos processos perturbados da energia ao longo dos meridianos, através de agulhas de metal, ímãs ou laser. Cada processo está ligado a um movimento orgânico da energia vital, cuja base é a totalidade.

Não é intenção deste livro aprofundar-se nesta escola terapêutica tão ampla e complexa, mas apenas indicar a existência e o uso da energia vital como seu fundamento de cura.

A acupuntura entrou no Ocidente via França, quando em 1671 o rei Luis XIV enviou à China uma missão de jesuítas da qual fazia parte o Dr. Harvieu que, em sua volta, publicou os Segredos da Medicina Chinesa, primeira obra citada pelos autores franceses. A acupuntura chegou na Alemanha em 1683, através do Dr. Kampfer, mostrando a antigüidade de sua presença no Ocidente.3

Existem atualmente na França numerosas associações, sociedades, institutos, organizações, grupos, sindicatos e a Confederação das Associações Médicas da Acupuntura (Confederation Nationale des Associations Medicales de Acupunture), além de muitas revistas, publicações, congressos e cursos de acupuntura que podem ser feitos em três anos, para médicos, além da prática hospitalar.4

Entretanto, para podermos analisar com mais critério o que o poder econômico e cultural podem fazer com as medicinas, sabe-se que em 1912 a acupuntura quase deixou de existir na China, sob influência dos ingleses que baniram as terapias tradicionais daquele país. “Os grandes laboratórios farmacêuticos estavam chegando à Ásia e queriam introduzir seus produtos à força”.5 O resultado foi desastroso: em 1949, havia só 40.000 médicos para atender 500 milhões de habitantes. Naquele ano, Mao Tsé-Tung (1893-1976) liderou a revolução comunista, reabilitando os terapeutas que haviam se tornado ilegais e transformando-os em agentes de saúde.

Na Coréia, o prof. Kim Gong Han anunciou em 1963 que a impedância da pele nos pontos de acupuntura é menor que nas regiões vizinhas da pele, o que levou ao desenvolvimento de diversos aparelhos que detectam estes pontos eletricamente e os estimulam, inclusive com raios laser.

Recentemente (1988) o físico Zang-Hee Cho, da Universidade da Califórnia, comprovou que certos pontos na pele estão de fato ligados aos órgãos internos. Cho escolheu estimular um ponto de acupuntura chamado kuang ming (“clareza da luz”), usado na acupuntura para as doenças dos olhos, ao mesmo tempo em que mapeava o cérebro do voluntário com um aparelho de ressonância magnética funcional. Este aparelho, além de mapear o córtex, identifica mudanças na quantidade de oxigênio no sangue, revelando quais regiões cerebrais estão em atividade. A experiência de Cho consistiu no seguinte:

1. A primeira imagem da RM mostrou a área do córtex visual ativado por uma lanterna acesa em frente ao voluntário;

2. A segunda imagem mostrou a mesma área ativada pelo estímulo do ponto kuang ming;

3. A terceira imagem mostrou a área inativa, ao serem estimulados outros pontos quaisquer da pele.6

Finalmente a ciência cartesiana provou que a região lateral do dedo mínimo dos pés, ao ser estimulada, ativa o córtex occipital em sua área visual! “Afinal de contas”, poderia questionar um cartesiano, “o que tem a ver o dedo mínimo do pé com  a bexiga, os olhos e a visão cortical?”

Sem falar que este ponto tem também outras indicações, como por exemplo: febre, nevralgias, congestão cerebral e nasal, dificuldades urinárias, dor de cabeça, má posição do feto, insônia, enxaqueca, lombalgia, ciática, glaucoma, etc. A explicação da acupuntura a esta questão é a presença dos “meridianos” já citados neste capítulo, mas ainda não aceitas pela medicina alopática.

Esta reportagem saiu na revista Superinteressante Ano 13, nº 2, de Fevereiro 1999. Mas no número seguinte saiu uma errata informando que “o nome do ponto de acupuntura estimulado na experiência do físico Zang-Hee Cho é tchi yin (que significa eliminar a energia yin) e não kuang ming (a clareza da luz) como está escrito nas páginas 27 e 28 (número 2, ano 13)”. Como foi copiado da revista, este erro ficou em meu livro, o que deverá ser corrigido em uma segunda edição. Leia a reportagem em http://super.abril.com.br/superarquivo/1999/conteudo_117340.shtml.

Existem atualmente várias tentativas de explicar, sob o ponto de vista newtoniano-cartesiano, o mecanismo de ação da acupuntura: “Se o estímulo chega ao córtex, pode, a partir dele, atingir o hipotálamo. O hipotálamo é um centro nervoso que trabalha em conjunto com a hipófise, a glândula-mãe”.7 “O estímulo pode agir no bulbo cerebral, que manda nos neuroquímicos”.8

O neurocientista Bruce Pomeranz, da Universidade de Toronto, tem uma teoria sobre a questão da anestesia pela acupuntura: “Existe uma célula na coluna vertebral que se chama interneurônio. Ela é um neurônio, só que pequeno, e sua função é evitar que o cérebro seja avisado da dor em situações em que isso prejudicaria o indivíduo”.9 Este interneurônio (que conecta um neurônio ao outro), ao ser estimulado pelo ponto de acupuntura, produz uma substância opióide que tem ação analgésica e bloqueia os sinais da dor.

Estas explicações científicas apenas mostram a necessidade que uma cultura tem de interpretar um conhecimento estrangeiro dentro dos seus próprios padrões de realidade. Para um ocidental a explicação da energia do Chi é apenas uma invenção dos chineses que não conheciam os interneurônios do sistema nervoso e os neurotransmissores como as endorfinas. Mas “explicar” um mecanismo de sedação da dor não é o mesmo que explicar como podem ser tratadas a epilepsia, asma e epistaxe por agulhadas em pontos específicos dos pés.

No início de 1977, os Institutos Internacionais de Saúde dos Estados Unidos organizaram uma reunião para avaliar a eficácia das aplicações e concluíram que elas realmente funcionam nos casos de dores de cabeça, de dentes, de coluna e cólicas menstruais.10 Entretanto, conclui-se também que a acupuntura é eficaz em casos de asma, enjôos e vícios, o que não pode ser explicado pela teoria de Pomeranz.

Assim, mesmo sem uma explicação clara e plausível em nível alopático, a OMS recomenda a terapia aos seus países-membros, reconhecendo a eficácia de 360 dos 1.500 pontos conhecidos.11

Além da Acupuntura propriamente dita, a Medicina Tradicional Chinesa utiliza ainda muitos outros processos terapêuticos, a saber:

Alimentação

A dietoterapia chinesa avalia os alimentos pelo seu tipo de energia predominante, Yin ou Yang:

Alimentos Yin: centeio, aveia, milho, cevada, berinjela, tomate, pimenta, pepino, espinafre, alcachofra, abóboras, cogumelos, ervilhas, beterraba, alho, couve-flor, lentilhas, pescado, porco, vaca, iogurte, natas, manteiga, margarinas, frutos, mel, açúcares, café, vinho, cerveja, chá verde, pimenta, refrigerantes.

Alimentos Yang: arroz, trigo, alface, repolho, alho-porro, grão-de-bico, rabanete, nabo, cebola, salsa, cenoura, agrião, linguado, atum, salmão, camarão, sardinhas, pato, peru, ovos, leite, queijos, amêndoa, azeitonas, óleos vegetais não refinados, alecrim, vinagre, mostarda, baunilha, açafrão, sal marinho não refinado.

A orientação dietética, contudo, deve ser indicada para cada caso em particular, considerando o predomínio da energia Yin ou Yang na pessoa, o tipo de atividade de cada um, assim como a estação do ano e a idade e o sexo do paciente.

Herboterapia chinesa:

A forma de avaliar a fitoterapia chinesa diferencia-se da ocidental porque aqui são analisadas os princípios ativos constituintes de cada planta e, assim, o seu efeito terapêutico. Isso quer dizer que a nossa fitoterapia tem um princípio bioquímico, o que deu origem à moderna alopatia. Já a fitoterapia chinesa elege outros princípios de investigação e utilização, a saber:

Propriedades e Sabores: As plantas chinesas podem ser classificadas segundo suas propriedades térmicas e seus sabores. As propriedades térmicas são quatro: quentes, mornas, frias e geladas. As plantas frias e geladas têm os efeitos de dispersar o calor, eliminar o fogo, remover substância tóxicas, e nutrir o yin, e são usadas para curar síndromes de calor (yang). Em contrapartida as plantas de natureza morna ou quente normalmente têm os efeitos de dispersar o frio, aquecer o interior, fortalecer o yang, e tratar colapsos e síndromes de frio (yin).

Já o termo “sabor” não se refere ao paladar mas aos seus efeitos fisiológicos no organismo. São cinco os sabores: picante, doce, amargo, azedo e salgado.

Picante: tem a propriedade de dispersar o agente patogênico exógeno do “exterior” do corpo e de promover a circulação do Chi e do sangue.

Doce: têm os efeitos de nutrir, repor, tonificar ou enriquecer diferentes partes ou órgãos do corpo, normalizando a função do estômago e do baço, harmonizando os efeitos de drogas diferentes, e aliviando o espasmo e a dor. São normalmente eficientes para tratar síndromes de deficiência, tosse seca, constipação devido à secura dos intestinos, desarmonia entre o baço e o estômago, e vários tipos de dor. Além disso, também são desintoxicantes.

Azedo: têm os efeitos de induzir a adstringência e parar as perdas (de substâncias do corpo). São freqüentemente usadas para tratar suor devido à debilidade, tosse crônica, diarréia crônica, emissão seminal, espermatorréa, enurese, micção freqüente, leucorragia crônica, metrorragia ou metrotaxia.

Amargo: as plantas de sabor amargo têm os efeitos de dispersar o calor, eliminar o fogo, dominar a rebelião do Chi ascendente enviando-o para baixo (para tratar tosse e vômitos), relaxar as vísceras, e eliminar a umidade. Tais drogas são usadas para síndromes de fogo, tosse com dispnéia, vômitos, constipação devido à calor-cheio, síndromes de calor-umidade, de frio-umidade e outras.

Salgado: têm efeitos de aliviar constipação por purgação, e dissolver e amaciar massas duras. São usadas para tratar fezes secas e constipação, escrófula, gota, massas abdominais e outros problemas.

Prescrição

Na fitoterapia chinesa existem 50 ervas fundamentais, mas elas raramente são prescritas isoladas, como se costuma fazer na fitoterapia ocidental. Uma prescrição chinesa escolhe as plantas de acordo com as suas funções, baseadas nas suas propriedades, sabores, movimentos, afinidade com os canais, e respeitando a sua compatibilidade e contra-indicações. Costuma-se usar uma planta principal, que é a que está destinada a produzir os efeitos que tratarão a raiz ou a manifestação principal de uma síndrome ou doença; uma planta assistente, usada para reforçar o efeito da principal; e uma ou várias coadjuvantes, que podem reforçar os efeitos da principal e assistente e reduzir ou eliminar suas toxicidades.

O mais comum na prática é que se receitem as chamadas “Fórmulas Magistrais Chinesas”, compostas por uma grande quantidade de ervas, previamente estabelecidas e aplicadas às vezes a milênios dentro da prática clínica, tais como: Jia Wei Xiao Yao San, Si Wu Tang e Run Chang Wan.

Ginástica

Os chineses costumam também praticar atividades físicas que visam fazer circular a energia do Chi nos meridianos e equilibrá-la constantemente, conforme as necessidades de cada época, condição de saúde e estações do ano. As mais conhecidas são o Tai Chi Chuan (Taijiquan) e o Chi Kung (Qi Gong).

Massagem

Para dores e doenças leves, são usadas as massagens nos pontos de acupuntura. É o tradicional Tui-na e seus derivados: Do-in, a massagem em apenas um acuponto, e Shiatsu, ao longo de todo o meridiano.

Outras técnicas:

Além das citadas, a terapia tradicional chinesa utiliza ainda: moxabustão (aquecimento dos pontos de acupuntura pelo uso da combustão da erva Artemisia), ventosaterapia (sucção da pele com ventosas) e sangrias (com lancetas).

Como existe grande quantidade de informações disponíveis na Internet sobre estes assuntos, não vou me prolongar mais.

 

Notas:

3  MARINS, A. Elementos de Acupuntura. São Paulo: Ground, 1979, p. 9.

4 Ibid., p. 10.

5 JIA, J. E. Ligação Direta. Superinteressante, Ano 13, nº 2, Fevereiro 1999, p. 32.

6BURGIERMAN, D. R. Ibid., p. 29.

7 XAVIER, G. Ibid., p. 28.

8 CHO. Ibid., p. 28.

9 XAVIER, G. Ibid., p. 30.

10 RAMSAY, D. Ibid., p. 30.

11 BURGIERMAN, D. R. Ibid., p. 31.

 

One Response to “Acupuntura”

  1. Cristiane disse:

    Leitura inteligente

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